• Wilma Peres Costa

FRANÇA E BRASIL NA ÉPOCA DA INDEPENDÊNCIA:QUANDO O HAITI FOI AQUI


Felix Taunay (c. 1830) - Mata reduzida a carvão

Quando evocamos o papel da França nas décadas iniciais da formação da nação brasileira, pensamos nas marcas da cultura francesa, na visualidade e na literatura. Em primeiro plano, o legado da colônia de artistas franceses que aqui chegou, em 1816, da qual o rico repertório de Jean-Baptiste Debret (1768-1848) é o exemplo mais eloquente. Ele dominou a visualidade do período, das pinturas e gravuras que registraram os acontecimentos aos símbolos nacionais, entre os quais a própria primeira bandeira nacional, com o brasão que traz entrelaçados o fumo e o café. O pintor Nicolas Antoine Taunay (1755-1830), integrante do mesmo grupo, com seus cinco filhos, registrou paisagens e retratos e um dos sues filhos, Félix-Émile Taunay (1795-1881), foi diretor da Academia Imperial de Belas Artes (1834), consolidando as bases do ensino artístico no Brasil. Também é conhecida a impregnação da cultura francesa no nascente movimento romântico brasileiro, em fecunda circulação de ideias, tópicas e escritos, estimulados no século XIX pelo viajante francês Ferdinand Denis (1798-1890), onde as temáticas indígenas, inspiradas em parte nos escritos de René de Chateaubriand (1768-1848), foram exploradas por poetas e romancistas.


Menos se fala sobre o papel de Chateaubriand e de outros franceses emigrados nas decisões que articularam os interesses da Restauração Bourbônica (1815-1830) com os acontecimentos americanos. Comecemos pelo contexto no sistema mundo: a rivalidade anglo-francesa e os efeitos sobre a França da fragorosa derrota por ocasião da Revolução de São Domingos (1791-1804), que levou à perda da sua colônia mais próspera, com enorme custo em vidas e bens materiais. Antes de 1816, sucessivas ondas de emigrados franceses chegavam a Portugal e seus domínios, em busca de proteção política, oportunidades econômicas e da expectativa de recuperar, nos trópicos, as condições ou parte da vida senhorial perdida nas tormentas revolucionárias. Alguns eram de famílias militares, como os Beaurepaire, os Escragnolle, Labatut, acolhidos já em Portugal, acompanhando D. João na vinda para América. Muitos deles foram proprietários em São Domingos, como a Condessa de Rochefeuil, que se juntou ao sobrinho, Jacques-Marie Aymard, o Conde de Gestas (1786-1837). A partir de 1816, além de artistas, chegavam também naturalistas e negociantes, de variadas inclinações políticas, inclusive antigos servidores de Napoleão, como Debret, os Taunays e o General Hogendorp (1761-1822), veterano das campanhas da Rússia.


Na Corte, o passado político pesava mais. Os Taunays tomaram outro caminho. Liderados pelo filho mais velho, militar condecorado das campanhas napoleônicas, foram se instalar na Tijuca, onde seus compatriotas estavam mais interessados nos negócios do que nas divergências políticas. Ali, a atividade agrícola se expandia rapidamente, atraindo imigrantes franceses de todas as vertentes. Ali, também, o General Hogendorp, o Conde de Gestas, a Baronesa Rouen e os Taunays podiam dedicar-se à agricultura em boa vizinhança, desde que tivessem recursos ou pudessem obter terras, que eram propícias ao cultivo do café.


A produção e exportação do café ocupava o nicho de oportunidade resultante da desorganização da produção de São Domingos, transformando em lavoura de exportação um cultivo que era feito, até então, em chácaras e quintais. A Tijuca foi um lugar importante de elaboração das técnicas de produção escravista do café, trazidas e adaptadas naquele lugar pelos emigrados franceses que se instalaram na Tijuca. O Duque de Luxemburgo, emissário diplomático francês, que viera em missão especial, em 1816, trazendo consigo o botânico e viajante Auguste de Saint Hilaire (1779-1853), havia servido em São Domingos e logo se interessou pela atividade, associando-se para isso a um parceiro de grande experiência e emigrado de São Domingos: o francês Louis François Lecesne (1759-1823), que se tornaria figura chave na propagação do café nos arredores do Rio de Janeiro. Tendo circulado pelo Caribe e pelos Estados Unidos, Lecesne era uma enciclopédia viva de conhecimentos sobre a plantação escravista. O Barão de Langsdorff (1774-1852), cônsul da Rússia que se associou às pesquisas dos franceses, considerava sua fazenda da Tijuca, como verdadeira escola.


Os interesses que gravitavam em torno do café nos arredores do Rio de Janeiro, valeram-se de estratégias políticas que se articulavam na França, a partir de 1821, quando desponta o protagonismo de René de Chateaubriand. O escritor e poeta tornou-se integrante do Ministério Villèle (1821-1828) e foi o ministro plenipotenciário no Congresso de Verona, em 1822. Sua atuação naquele encontro teve importantes desdobramentos para o emergente Império brasileiro. Procurando contrapor-se às pretensões inglesas sobre o mundo americano e responder às demandas dos colonos franceses por reparações pelas perdas sofridas em São Domingos, Chateaubriand enfrentou decididamente as pressões inglesas pela abolição do tráfico de escravizados impedindo a sua equiparação ao crime de pirataria. Esse posicionamento de contrapeso às pressões inglesas contra o tráfico, favorecia D. Pedro, e viria a esvaziar a eficácia dos tratados assinados por D. João e por ele mesmo, fazendo gravitar para o projeto pedrino as várias vertentes políticas da colônia francesa do Rio de Janeiro.


Chateaubriand via com simpatia os acontecimentos que, no Brasil, apontavam para a possibilidade de enraizamento da monarquia constitucional, a partir de um monarca legítimo, forma que ele considerava necessária para o futuro da monarquia nos dois mundos. Constitucionalismo mitigado, mantendo a câmara dupla e as rédeas do poder nas mãos do rei.


No Rio de Janeiro, ele contava com um importante mediador. Aymar de Gestas de Lespéroux (1786-1835), o Conde de Gestas, foi enviado pelo príncipe D. Pedro à França, após a decisão do Fico (janeiro de 1822), com uma carta pessoal pedindo a proteção a Luís XVIII, voltando de lá como cônsul-geral francês no Brasil, com uma generosa dotação em dinheiro. Chateaubriand promoveu o casamento de Gestas com sua sobrinha (e afilhada), retornando o casal para o Rio de Janeiro. O primeiro filho deles se chamou Pedro e teve o casal imperial como seus padrinhos. A partir daí a sua missão passou a ser a de aplainar as dificuldades para o reconhecimento do Império por parte da França e, mais tarde, obter um tratado de comércio que equiparasse à França as vantagens que eram obtidas pela Inglaterra. A fazenda Boa Vista, na Tijuca, residência do Conde de Gestas, e da sua tia, a duquesa de Roquefeuil consolidou-se como ponto obrigatório da sociabilidade dos estrangeiros que visitavam a Corte, sendo frequentada também pelo casal real.


Os Taunays, que eram vizinhos de Gestas, abaixo da Cascatinha, e dela estavam afastados pela condição social, também teriam aí o seu papel. O mais velho, o Major Charles Auguste Taunay (1791-1867) combateu em defesa da causa de D. Pedro, na Bahia e no Maranhão. Mais tarde, publicou o Manual do Agricultor Brasileiro, onde consolidava conhecimentos relevantes para a instalação e gestão da cultura agrícola tropical com mão de obra escravista, cujos primeiros capítulos surgiram em 1831. O outro irmão “não artista”, Theodore-Marie Taunay (1797-1830), seria secretário do Conde de Gestas e seu sucessor no trabalho do Consulado Francês (1830), posição chave para a defesa dos interesses dos proprietários e para a gestão de seus bens. Ativo e discreto, o vice-cônsul Theodore, tornou-se conhecido pela sua atividade na Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, junto do Conde de Gestas. Com sucesso, contribuíram para que, de certa forma, o Haiti fosse aqui, recompondo-se no sul da América em novas configurações.


Wilma Peres Costa é professora do Departamento de História da Unifesp e se dedica aos temas da formação da nação e do estado no Brasil do século XIX. E-mail: wilma_peres@uol.com.br. Orcid: https://orcid.org/0000-0003-4217-2452.

Saiba mais

MARQUESE, Rafael. A Ilustração luso-brasileira e a circulação dos saberes escravistas caribenhos: a montagem da cafeicultura brasileira em perspectiva comparada. História, Ciências, Saúde-Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 16, n. 4, p. 855-880, 2009. DOI: https://doi.org/10.1590/S0104-59702009000400002

FERREZ, Gilberto. Pioneiros da cultura do café na era da independência: Louis François Lecesne e seus vizinhos. Rio de Janeiro: Conselho Federal de Cultura. 1978.

CHATEAUBRIAND, François-René de. Le congrès de Vérone; Guerre d’Espagne. Paris: Garnier, 1861, v. 12 (Oeuvres Complètes).

TAUNAY, Carlos Augusto. Manual do Agricultor Brasileiro. São Paulo: Cia. das Letras, 2001 [1839].


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