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  • Foto do escritorMarta Lúcia Lopes Fittipaldi

BICENTENÁRIO OFICIAL: TEM BRIGADEIRO NA FESTA DA SECOM

Combate à alegada escalada do “perigo comunista”, defesa da religiosidade e da ação militar como salvaguardas da moral do país: qualquer semelhança não é mera coincidência. O Brigadeiro Eduardo Gomes é o grande herói do século XX escolhido pelo governo Bolsonaro nas comemorações do Bicentenário.


Marta Lúcia Lopes Fittipaldi


O Brigadeiro Eduardo Gomes (1896-1981) é o único militar graduado do século XX até agora escalado como herói do Bicentenário. A homenagem pode ser conferida no site da Secom – Secretaria Especial de Comunicação Social do Governo Federal. Existem algumas possíveis explicações ligadas ao jogo político brasileiro entre os anos de 1920 e 1950 para essa convocação solitária. Sua figura coube muito bem nos moldes de uma personagem não demasiadamente envolvido com a ditadura militar, a ponto de desencadear protestos, mas convenientemente próximo, mesmo representante, da projeção do militar interventor e guardião das liberdades. Ou seja, uma escolha feita desde a perspectiva política do atual governo, que nega 1964 como golpe, tratando-o como contrarrevolução.


Eduardo Gomes morreu em 1981, perto de completar 85 anos, tendo, no ano anterior, recebido uma benção pública do Papa João Paulo II, então em visita ao Brasil. Para muitos brasileiros, principalmente aqueles que viveram os acontecimentos políticos, a partir da década de 1940, era evidente a memória sobre o militar, com fama de austero, patriota, católico e que passou a ser identificado como “Brigadeiro”, conforme foi despontando no cenário das disputas eleitorais. A associação que o leitor pode ter feito é verdadeira. O doce brigadeiro, uma das delícias mais tradicionais da culinária brasileira tem tudo a ver com o personagem. A guloseima foi criada, e assim batizada, durante reuniões de senhoras cariocas que apoiavam a candidatura de Gomes à presidência, em 1945.


Gomes concocorria pela UDN – União Democrática Nacional – legenda que reunia grupos de direita próximos ao comando militar e, que naquele mesmo ano, 1945, tirou Getúlio Vargas da presidência. Essa investida, no entanto, acabou em um contra-ataque inesperado: Vargas, mesmo fora do jogo político, teve sucesso em apoiar o principal oponente de Eduardo Gomes, Eurico Gaspar Dutra, consagrado vencedor dessa disputa. Contudo, eles – o brigadeiro e Getúlio Vargas, nem sempre estiveram em times opostos. Afinal, o militar despontou na Revolta dos 18 do Forte de Copacabana, em 1922, famoso episódio do Movimento Tenentista que viabilizou a chegada do gaúcho Vargas à presidência, em 1930. Sendo assim, o brigadeiro chegou a comandar forças governistas contra a chamada Revolta Constitucionalista, de 1932. Era então major da Força Aérea, atuando como um dos criadores e diretores do Correio Aéreo Militar. Instaurado o Estado Novo, em 1937, ele pediu exoneração do comando do 1º Regimento de Aviação. Começa então sua projeção como defensor das liberdades, em oposição à ditadura varguista.


Gomes, assim como muitos de seus colegas de farda, fazia parte de uma corrente ideológica que acreditava no “intervencionismo controlador”, ou seja, no papel dos militares como “poder moderador”. Para o brigadeiro, os que detinham as armas não deveriam ficar só nas palavras e, sempre que preciso, pelo bem da democracia e da ordem, a caserna deveria agir, ou consentir – acrescento com base em recente tese que analisa os discursos, mas também os atos do personagem. Segundo Flávia Ferro, Gomes defendeu o governo Vargas contra os comunistas, em 1935; mas, de forma contrária, manteve-se neutro durante o levante integralista de 1938, neutralidade interpretada como uma escolha política a favor daquele movimento, ligado aos ideais da extrema direita, que o militar preferiu não combater. Além disso, Gomes deu outras demonstrações do seu senso seletivo de democracia: participou da tentativa de impedir a posse de JK, legitimamente eleito em 1958, assim como apoiou a destituição de Vargas, em 1954, em um esforço político da UDN e dos militares que resultou no suicídio do presidente. O brigadeiro também compactuou com o golpe civil-militar de 1964, tendo atuado como Ministro da Aeronáutica durante o governo Castelo Branco.


Em 1984, no governo João Figueiredo, no fim da ditadura militar, ele foi alçado à Patrono da Aeronáutica. Sua figura, destacada nos acontecimentos anteriormente relatados, manteve-se imaculada na memória histórica dos grupos conservadores: defendeu o país contra o comunismo, chegando a ser ferido no comando da ação de 1935; concorreu duas vezes à presidência, perdendo nas urnas, mas firmando-se, por meio dos comícios da época, um orador carismático, dono de uma bela figura, defensor de valores cristãos, aliados à defesa da democracia e da legalidade sob as garantias do poder moderador das Forças Armadas.

Ídolo entre grande parte dos militares, liderança dos udenistas em duas disputas presidenciáveis, sua fala não conseguiu persuadir número suficiente de eleitores, sobretudo entre os mais desvalidos, que enxergavam em Vargas a benevolência de um presidente protetor. Foi, no entanto, uma figura marcante para um eleitorado plural e expressivo, formado provavelmente não só pelas elites, conforme apontavam seus adversários, mas por pessoas de vidas simples que se identificavam com a imagem do soldado-cristão, sempre a postos para defender o país contra ditadores e corruptos.


No site da Secom, Gomes foi posicionado ao lado de outras figuras ligadas ao universo das armas, mas todas do século XIX, como Duque de Caxias, Almirante Tamandaré e Maria Quitéria. Do século passado, militar de alta patente, apenas ele, Eduardo Gomes, dividindo espaço com os combatentes da FEB – Força Expedicionária Brasileira, representados pela figura de Justino Alfredo. Morto em 2021, aos 91 anos, Justino compôs a força nacional enviada à Segunda Guerra, esforço que em grande parte também foi atribuído ao militar fluminense que justamente em 1944, ano do desembarque dos pracinhas brasileiros na Itália, alcançou o maior posto de sua carreira, sendo promovido a Major-Brigadeiro – do Ar. Essa promoção contribuiu para consolidar a imagem do “herói” que tinha exercido papel importante na vitória dos Aliados e também no combate ao “perigo comunista” e à ditadura varguista. Na festa oficial do Bicentenário da Independência, o brigadeiro volta à cena como figura adequada à narrativa do governo federal.


Marta Lúcia Lopes Fittipaldi é mestra em História pela Universidade Federal Fluminense e doutora pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), compondo o Núcleo de Estudos em História Social da Política (NEHSP) da UFJF. E-mail: mlsepol@gmail.com. Orcid: https://orcid.org/0000-0002-4869-2822.


Saiba mais:

FERRO, Flavia Salles. Um liberal autoritário: trajetória política de Eduardo Gomes (1922-1981). 2020. Tese (Doutorado em História) – Instituto de Ciências Humanas, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2020.


Brasil. Ministério das Comunicações. Secretaria Especial de Comunicação Social (SECOM). Bicentenário da Independência do Brasil. Brasília, 2022. Disponível em: https://www.gov.br/pt-br/campanhas/bicentenario. Acesso em: 12 maio 2022.


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