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REBECA GONTIJO | COMO VOTA A COMUNIDADE HISTORIADORA?

Por que vou votar em Luís Inácio Lula da Silva no dia 30 de outubro?


Eu voto desde 1989. Mas, eu tinha contato com a política em casa desde muito cedo. Minha mãe dizia que votou na UDN e no Jânio... Já meu pai, militar, admirava o Brizola. Mas ele não falava sobre política em casa. Lia muito e estava sempre atento ao noticiário. Parentes diziam que ele era comunista. Eu acho que ele era um democrata, que cantarolava a Internacional Socialista e a Marselhesa sem problemas. Meu aprendizado político certamente foi alimentado pelo que circulava em casa, onde sempre havia livros e muitos jornais, rádio e tv ligados. E eu ouvia Secos e Molhados, encantada pela Rosa de Hiroshima e tentando entender o significado. Também era leitora de revistas dirigidas para adolescentes, nas quais as questões que eu chamaria de progressistas hoje, estavam presentes. Ao mesmo tempo, frequentava colégio católico, escola franciscana, entre muitas outras da região metropolitana do Rio. Tive amigos de diferentes classes sociais, brancos e negros, e vivia em bairro pobre, mas minha família podia ser vista como remediada. Em certo momento, na década de 1980, frequentei um grupo jovem da igreja católica local. Lá conversávamos sobre problemas juvenis e ideais cristãos, além de cantar ao som do violão. Muito mais tarde nasceu o interesse em estudar história na universidade. No ambiente da UFF, início dos anos 1990, o movimento estudantil recém renascido não me atraiu muito. Mas fui construindo uma visão própria da vida política e fazendo minhas escolhas nas urnas, sempre votando em candidatos da esquerda: PT ou PDT, no plano nacional, ou em um nome qualquer da política local, onde eu nunca tinha muitas opções.


Em 2022, vou votar em Lula pelo passado, pelo presente e pelo futuro. Lula é a maior liderança da esquerda em nosso país e, possivelmente, a maior liderança mundial na atualidade, por ser capaz de articular e dialogar com diferentes grupos e dizer aquilo que precisa ser dito: o combate à desigualdade, à pobreza, é necessário e urgente. Sem isso, não é possível combater os grandes males do mundo hoje: a miséria, a guerra, o terrorismo, os problemas climáticos e a destruição ambiental, as imigrações forçadas, a exploração dos trabalhadores e trabalhadoras, o trabalho análogo à escravidão, a violência contra mulheres e crianças, o avanço da extrema-direita no mundo, a disseminação das notícias falsas e dos negacionismos, a criminosa concentração de renda etc. Tudo isso nasce ou encontra terreno fértil na pobreza. Todos esses males afligem o nosso país há décadas e, desde a redemocratização e a promulgação da Constituição de 1988, vinham sendo combatidos em maior ou menor medida. Com certeza, os governos do PT muito contribuíram nesse combate, enfraquecido desde 2013 e, sobretudo, desde 2016, devido ao golpe que afastou a presidenta eleita por mais de 50 milhões de votos, Dilma Rousseff. Como presidente, Lula incluiu os pobres no orçamento e não tratou a educação como gasto, mas como investimento. Eu acredito que isso é necessário para ultrapassar nossa condição colonial. Lula ajudou a recuperar a autoestima nacional, rompendo como nosso costumaz complexo de vira-lata. Lula é um político com P maiúsculo, um democrata, negociador, atento às demandas de diferentes grupos, conhecedor do país e dos diversos grupos de interesse que disputam o poder e a voz no Brasil. Também é um líder reconhecido internacionalmente e poderá ajudar a reconstruir as relações do Brasil com o mundo, destruídas pelo governo Bolsonaro. E vai proteger instituições fundamentais para a nossa democracia: os três poderes, as universidades, o Ibama, a Funai e todas aquelas que o governo atual se empenhou em desmontar. Também acredito que, com Lula, o debate político poderá ser retomado de forma sadia, de modo a expor o modus operandi da extrema-direita internacional e recolocá-la à margem da sociedade e da política, servindo como uma espécie de alerta sobre aquilo contra o que devemos lutar. A democracia, com todos os seus problemas, é o único caminho. Depois de ser condenado em processo duvidoso, conduzido por juiz suspeito, finalmente anulado pelo Supremo Tribunal Federal, Lula manteve o ânimo e me inspira a continuar acreditando no Brasil. Com Lula e o PT, sinto as esperanças renovadas na luta vencível por meio da democracia.


Rebeca Gontijo é professora do Departamento de História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro


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