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  • Foto do escritorSecretaria da ANPUH

JOSÉ MURILO DE CARVALHO (1939 - 2023)

Republicamos abaixo o obituário feito pelo professor Cristian Lynch, a pedido do IESP-UERJ, em tributo ao historiador e imortal José Murilo de Carvalho.


O Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro cumpre o doloroso dever de comunicar o falecimento ontem, 13 de agosto de 2023, no Rio de Janeiro, de um dos maiores nomes da inteligência brasileira: o Prof. José Murilo de Carvalho. O professor teve uma formação e um talento literário que fez dele, com tanta razão, um dos mais conhecidos acadêmicos e intelectuais públicos de sua geração. Ele criou a métrica para o processo de mudança social, articulado com aquele das instituições políticas e da história intelectual. Àqueles que admiram José Murilo de Carvalho como historiador, cumpre sempre lembrar que parte de sua força vinha do fato de ter formação como cientista social.


Nascido em 1939, o mineiro José Murilo pertenceu à primeira geração de cientistas políticos brasileiros. As duas partes de sua tese de doutorado na Universidade de Stanford sobre a construção do Estado brasileiro– A Construção da Ordem e Teatro de Sombras cedo se tornaram marcos que transformaram a área de estudos sobre State Building e história do brasil imperial. Já ali, ele revelava duas das principais características de sua obra: uma de caráter formal – o exame do processo político empírico em perspectiva interdisciplinar, pela articulação entre ciência política, história política e pensamento político brasileiro -, e outra de caráter substantivo: a preocupação constante com a formação da cultura cívica brasileira e das instituições “republicanas”.


Depois de um período na Universidade de Londres, José Murilo foi convidado por Wanderley Guilherme dos Santos em 1978 a integrar o corpo acadêmico do antigo IUPERJ, atual IESP-UERJ, sendo responsável pela cadeira de Pensamento Político Brasileiro e corresponsável pela de Política Brasileira. Nesse meio tempo, por ele considerado o mais “feliz” de sua carreira acadêmica, ele desenvolveu pesquisas que resultaram nos livros que o consagrariam como acadêmico e intérprete do Brasil. Os bestializados e A formação das almas – completadas depois por Forças Armadas e Política no Brasil, cujo grosso das pesquisas data desse período – assinalam a fragilidade de uma cultura cívica republicana marcada pelo elitismo, o patrimonialismo e o autoritarismo. Inventário sintético dessa trajetória, que adapta a teoria de Marshall ao Brasil, A cidadania no Brasil: o longo caminho logo se tornou um best-seller em todas as áreas das ciências humanas.


É com profundo pesar que o IESP-UERJ se despede de um de seus fundadores. José Murilo deixa aos pósteros o exemplo de uma produção intelectual ampla, sólida e multidisciplinar – e, com ela, um nome e um legado duradouro para as nossas ciências humanas.

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