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  • Foto do escritorFabrício Prado

UMA MONARQUIA ENTRE REPÚBLICAS

Ao invés de celebrar a Independência, países vizinhos desconfiaram e preferiram isolar o Brasil


Pedro Paulo Cantalice Estigarríbia , “José de Abreu em Passo do Rosário,” EBAcervo

Em setembro de 2022, o Brasil completa 200 anos de independência. É provável que venha a receber mensagens de congratulações pelo bicentenário, vindas de chefes de estado de toda a América Latina. Tal situação será muito diferente das relações após 1822, quando as recém-independentes repúblicas latino-americanas ficaram desconfiadas com uma independência que resultou numa monarquia nas Américas. Para muitos, aquele movimento servia à ideia de mudar para que tudo ficasse como era, incluindo as políticas expansionistas do colonialismo europeu. Ao sul, para as Províncias Unidas (atual Argentina), o surgimento do Brasil imperial manteve a política de expansão e conquista territorial no Rio da Prata, engendrada por Portugal: seguia a ocupação do território do atual Uruguai, fator decisivo na negativa em reconhecer oficialmente a Independência do Brasil. Ao norte, na Grã-Colômbia (atuais Venezuela, Colômbia e Equador) e repúblicas da América Central, recaiam suspeitas e receios – bastante plausíveis – em reconhecer um império liderado por um nobre europeu no Brasil, provocando temor em legitimar uma monarquia absolutista e suas pretensões de expansão territorial nas fronteiras Amazônicas.

Se atualmente a Argentina é a maior parceira comercial do Brasil na América Latina, em 1822, as Províncias Unidas do Rio da Prata manifestaram desconfiança e hostilidade para com a nascente monarquia brasileira. Essa postura se deveu à continuidade da ocupação e incorporação do território da Banda Oriental (atual Uruguai) como uma província do Império – a Província Cisplatina, iniciada sob a égide do Império Português, em 1816. Desde o início das guerras de independência no Rio da Prata (1810), a região do atual Uruguai tinha sido objeto de disputa entre espanhóis, portugueses, revolucionários de Buenos Aires e o movimento de cunho popular e federal, liderado por José de Artigas. A invasão da Banda Oriental por tropas Luso-Brasileiras, em 1816, e a anexação da região ao Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves, em 1821, sempre foram alvo de protestos por parte de Buenos Aires. Em 1822, quando o Brasil surgiu como um país independente e manteve suas pretensões sobre a Banda Oriental, o governo revolucionário de Buenos Aires insistiu em não reconhecer a legitimidade da expansão territorial brasileira sobre a região e, por isso, evitou reconhecer formalmente a independência do Brasil. Foi esse impasse, aliás, que levou à eclosão do primeiro conflito militar entre os novos vizinhos sul-americanos. Em 1825, quando líderes estancieiro-militares da Banda Oriental se rebelaram contra o domínio Brasileiro, com apoio das Províncias Unidas, teve início a chamada Guerra da Cisplatina (1825-1828), que opôs as Províncias Unidas ao Brasil e que resultou na independência do Uruguai, em 1828.


Mas os vizinhos platinos não eram os únicos a nutrir desconfianças quanto ao surgimento de um Brasil independente e monarquista. Ao Norte, tanto as repúblicas do México e da América Central, assim como a Grã-Colômbia, mantiveram desconfianças acerca do Brasil Império. Parte dessa reação deveu-se ao retumbante fracasso da curta experiência imperial no México (1822-1823). Em seu breve reinado, o imperador mexicano Iturbide I rapidamente concentrou poderes e assumiu ares despóticos. Essa experiência culminou com a proclamação da República Mexicana, o fuzilamento de Iturbide, e a independência das repúblicas centro-americanas. Entretanto, o ocorrido no México foi um sinal de alerta entre as repúblicas hispano-americanas acerca dos perigos despóticos das monarquias.


Na Grã-Colômbia, Simón Bolivar também expressou sua desconfiança de um império de um príncipe Europeu nas Américas. Ele via como ameaça as políticas expansionistas do Império nas fronteiras da Amazônia. Afinal, a manutenção da anexação do Uruguai em 1822 por parte do Brasil revelava as ambições de expansão territorial do Império. As desconfianças eram tantas, que quando o “libertador” Simón Bolívar conclamou o Congresso Pan-Americano no istmo de Panamá, em 1826, o Brasil não foi convidado. Para Bolívar e outros chefes de governos republicanos das Américas, uma velha, apesar de recente, monarquia absolutista, não tinha espaço entre as jovens repúblicas latino-americanas que surgiam.


Foi só após o reconhecimento de outra velha monarquia europeia, a Inglaterra, em 1825, que o Brasil independente passou a ser aceito por parte de seus vizinhos latino-americanos nos anos seguintes, ainda com desconfiança geral. Afinal, a Inglaterra foi a potência mediadora da Convenção Preliminar de Paz que selou o fim da guerra entre as Províncias Unidas e o Brasil e marcou o surgimento do Uruguai independente (1828). Essa Convenção de 1828 marcou o início de relações bilaterais do Brasil monárquico e seus vizinhos republicanos.


Nas décadas seguintes, o Império do Brasil continuou a intervir na política platina de forma direta – militarmente nas disputas políticas tanto de Argentina como Uruguai –, e indireta – dando suporte a facções políticas em conflitos internos. Entretanto, a formação da Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai) parece ter dissolvido as desconfianças entre o Império e algumas repúblicas vizinhas. Na Guerra do Paraguai (1865-1870), o Império do Brasil e as repúblicas da Argentina e do Uruguai aliaram-se contra o Paraguai, uma república ditatorial, no maior e mais covarde conflito bélico da América do Sul. Nessa guerra, antigos inimigos viraram aliados e tanto a monarquia brasileira como a república Argentina acabaram por concretizar suas ambições expansionistas conquistando vastos territórios, então pertencentes ao Paraguai.


Fabrício Prado é professor na William & Mary (EUA). E-mail: fpprado@wm.edu [https://orcid.org/0000-0002-5942-9982]

Saiba mais

PRADO, Fabrício. Comércio Trans-Imperial e Monarquismo no Rio da Prata Revolucionário: Montevidéu e a Província Cisplatina (1808-1822). Almanack, Guarulhos, n. 24, ed00819, 2020. DOI: http://doi.org/10.1590/2236-463324ed00819

CHASTEEN, John Charles. Americanos – Ideias e batalhas na Independência da América Latina. Rio de Janeiro: Edições de Janeiro, 2017.

PIMENTA, João Paulo. A Independência do Brasil e a Experiência Hispano-Americana. São Paulo: Hucitec, 2015.



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