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  • Foto do escritorFilipe Pinto Monteiro

SALVAM-SE DA ENCHENTE QUE ATINGIU PETRÓPOLIS OS LIVROS E A MEMÓRIA DO CENTENÁRIO DA INDEPENDÊNCIA

Servidores e voluntários resgatam obras raras sobre o processo de Independência do Brasil. Saiba quais as mais importantes.

Filipe Pinto Monteiro



Após as inundações sofridas pela Biblioteca Central Municipal Gabriela Mistral (BGM), em Petrópolis, nos dias 15 de fevereiro de 2022, parte de seu acervo – acondicionado no piso térreo do Centro de Cultura Raul de Leoni (CDC), às margens do Rio Piabanha – precisou ser resgatado de forma emergencial. As chuvas torrenciais que atingiram o 1º distrito da cidade (centro e arredores) causaram uma destruição nunca antes vista. A BGM, alagada anteriormente com as chuvas de 1988 – até então o evento climático mais traumático na memória coletiva petropolitana –, nunca havia sofrido com uma situação como essa, que transformou o município no epicentro de um dos fenômenos mais extremos na História Ambiental do Brasil.


Aproximadamente 8.000 livros foram diretamente atingidos e ficaram submersos em 1,60 m de lama, esgoto e detritos. Salvaram-se das águas barrentas apenas aqueles que se encontravam na última das quatro prateleiras das estantes. Tornou-se, assim, imperativo o resgate do acervo, realizado pela equipe de servidores e voluntários do qual este autor orgulhosamente fez parte. A força-tarefa resgatou itens do Acervo Geral (A.G.) e do Acervo Antigo (A.A.), este em parte não inventariado, do qual emergiram obras raras e raríssimas sobre o processo de Independência do Brasil.


Entre elas, A História da Colonização Portuguesa do Brasil, impressa entre 1921 e 1926 e ricamente ilustrada, impressiona. Dos três tomos que compõem a coleção, foram salvos da enchente os volumes I (Os Precursores de Cabral) e III (A Idade Média Brasileira), tendo o II (A Epopeia dos Litorais), já sido identificado na Seção de Obras Raras. Além da direção geral do escritor Carlos Malheiro Dias (1875-1941), da direção artística do pintor e desenhista Alfredo Roque Gameiro (1864-1935), autor das ilustrações, e da direção cartográfica do vice-almirante da Armada Ernesto de Vasconcelos (1852-1930), a coleção tem a contribuição de nomes do porte do historiador Jaime Cortesão (1884-1960).


Tal coletânea foi pensada para ser publicada em meio às festividades do I Centenário da Independência do Brasil em 1922. Foi uma tentativa, malograda é bem verdade, de exaltar e valorizar o período colonial brasileiro, ou como queriam os organizadores, a “Idade Média” verde-amarela, uma espécie de continuidade do renascimento português que, sob o governo de D. João III (1521-1557), levava as caravelas a desbravar o ultramar.


A despeito da tormenta, também foi retirado das águas barrentas e infectas um exemplar monumental, de um total de seis volumes, intitulado O Centenário da Independência do Brasil: acclamação e corôação do Principe D. Pedro. Primeiro Imperador Constitucional do Brasil, que pertence a uma coletânea de seis volumes, publicada em folio máximo, em 1922, também nas comemorações do primeiro centenário. Reúne documentos “fac-similados” recebidos e\ou produzidos pelo Senado da Câmara do Rio de Janeiro. Foi organizada a mando do então prefeito do Distrito Federal, o petropolitano Paulo de Frontin (1860-1933) e impressa no mandato do prefeito Carlos Sampaio (1861-1930).


O volume salvo possui dimensões maiores que o restante da coleção e reproduz termos lavrados, autos de vereações, e representações na cidade do Rio entre janeiro e junho de 1822. Já o primeiro volume da coleção – devidamente identificada na BGM – retrata a documentação recebida pela Câmara, como a vereação extraordinária sobre a aclamação, a ata de aclamação, termo de assinaturas e o auto de juramento de D. Pedro I. O volume II traz os papéis de Adhesão das Provincias do Norte; o Volume III os Actos do Governo e Adhesão das Províncias do Sul; o Volume IV a Adhesão das Províncias Centraes. No Volume V parte do título da obra é modificado para Assembleia Constituinte e Constituição do Império, com a reprodução de documentos das Províncias sobre essas duas peças políticas.


Cabe lembrar que o Senado da Câmara, órgão tradicional na organização institucional portuguesa (fosse na Corte ou no Ultramar), era um espaço por excelência de representação das elites locais. Seus componentes apoiaram a permanência de D. Pedro I no Brasil e lhe deram sustentação política no momento da emancipação em 1822. Posteriormente, a instituição camarária seria agraciada com o título de “ilustríssima”, o que revela uma relação próxima entre os súditos e o sobrenado, principalmente no que toca ao controle de festejos políticos e representação do povo, cruciais naquele momento.


Entre as várias obras raras resgatadas e que retratam o processo de emancipação brasileiro, foram salvos três tomos originais do Archivo Diplomático da Independencia, de 1922: volumes II (Grã-Bretanha), III (França, Santa Sé, Hespanha) e IV (Áustria e Estados da Allemanha). O trio integra uma compilação documental de seis volumes feita por diplomatas brasileiros, entre eles, Mario de Barros e Vasconcellos, um dos biógrafos do Barão do Rio Branco. Reimpressas em 1972 por conta do sesquicentenário, uma terceira edição foi publicada em 2018 pela Fundação Alexandre Gusmão (Funag), órgão que lançou neste ano de 2022 mais uma edição das obras em comemoração ao Bicentenário. Embora salvos e descontaminados, é possível que o restante da coleção, o volume I – Grã-Bretanha (ainda sobre as relações com o Reino Unido); o volume V – Estados-Unidos e Estados do Prata; e o volume VI – Portugal, tenha se perdido na enchente.


Após resgatadas, limpas e higienizadas, as peças agora serão submetidas à anóxia – retirada de oxigênio para controle de pragas – para, futuramente, serem restauradas e digitalizadas. O trabalho só foi possível com a colaboração de uma equipe multiprofissional, que contou com este autor, servidores, voluntários e técnicos em conservação de obras raras.


Filipe Pinto Monteiro é doutor em história das Ciências e da Saúde pelo PPGHCS-Fiocruz, realizou estágio de pós-doutorado no PPHIST-UFPA e é professor universitário. E-mail: filipemhst@gmail.com


Lista de obras resgatadas


BARROS E VASCONCELLOS, Mario de et. al. Archivo diplomático da independencia. Rio de Janeiro: Lithographia-typographica Fluminense, 1922. (Collectanea de Documentos Históricos autorisada por sua excelencia o Senhor Dr. J. M. Azevedo Marques ministro das relações exteriores e organizada por Mario de Barros e Vasconcellos, Zacarias de Góes Carvalho, Oswaldo Correia, Hildebrando Accioly e Heitor Lyra, funcionários da secretaria de Estado)


CENTENÁRIO da independência do Brasil: acclamação e corôação do Principe D. Pedro. Primeiro Imperador Constitucional do Brasil. “Fac-simile” dos documentos do Senado da Câmara do Rio de Janeiro (janeiro a agosto de 1822). Rio de Janeiro: Prefeitura do Districto Federal. (Photozincographia mandada executar pelo Dr. Paulo de Frontin e impressa por ordem do prefeito Dr. Carlos Sampaio)


DIAS, Carlos Malheiro; ROQUE, Gameiro; VASCONCELOS, Ernesto de. História da colonização portuguesa do Brasil. Porto: Litografia Nacional, 1924-1926. (Edição monumental comemorativa do primeiro centenário da independencia do Brasil).


Para Saber mais:

MALERBA, Jurandir. A independência brasileira: novas dimensões. Rio de Janeiro: FGV, 2015.


PIMENTA, João Paulo. Independência do Brasil. São Paulo: Contexto, 2022. v. 1.


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