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MARIANA ESTEVES DE OLIVEIRA | COMO VOTA A COMUNIDADE HISTORIADORA?

A esperança equilibrista e por que voto Lula-Haddad


Mariana Esteves de Oliveira*

Sou Mariana Esteves, tenho 42 anos, professora e filha de uma professora-mãe-solo, desde criança experimento a vida na corda bamba de sombrinha. Moro no estado de São Paulo, e em 30/10, votarei em Lula e Haddad, para presidente e governador, respectivamente. Justifico meus votos a partir da visão de historiadora, trabalhadora da educação, mulher e de esquerda. Poderia resumir minhas escolhas argumentando que tenho consciência de classe, mas sei que não é tão “simples” assim. Apesar das críticas a serem direcionadas aos governos do PT, compreendo, em primeiro lugar, que os últimos 6 anos foram marcados por retrocessos imensos para o conjunto da classe trabalhadora, em especial para mulheres e negros/as, trabalhadoras/es dos campos e cidades, bem como para a existência dos povos originários e de suas terras comunais, tão determinantes para o equilíbrio ambiental necessário à continuidade da vida.


Compreendo que as conquistas proporcionadas pelas lutas da redemocratização foram incompletas e interrompidas e, mais recentemente, a experiência da pandemia de Covid-19 agudizou a crise, e ainda desvelou a personalidade perversa do atual mandatário em relação às vidas das/os brasileiras/os. A legitimação do preconceito e da violência, inaugurada na era bolsonaro, conferiu um aspecto de barbarização das relações sociais que não só interrompe as conquistas que somávamos (ainda que em poucos dedos) até 2015, mas também materializa um cenário fundamentalista com verdadeiras ondas persecutórias de ódio e morte contra “inimigos” ou “desviantes”, a nos remeter aos fascismos ou às caças às bruxas do início da era moderna, na acumulação primitiva e seus diversos cercamentos. Não conseguimos e nem podemos apagar as manchas torturadas e o sufoco, creio que devemos enfrentá-las.


Somando-se que o projeto conservador de bolsonaro é sustentado pelos recursos e interesses do capital, como do agronegócio, o poder destrutivo dessa corrosão social e ambiental precisa ser barrado e, ainda que não possa ser superado de um todo, em vista das configurações do poder legislativo, que seja equilibrado, tensionado, posto em xeque.


No estado de São Paulo, após trinta anos de neoliberalismo tucano, em que servimos de laboratório aos mais diversos planos de desmonte e ajustes, a escolha que se coloca agora apresenta, de um lado, Fernando Haddad, professor com um projeto humanista e, de outro, um candidato carioca representante do bolsonaro (e do bolsonarismo), desenhando uma terra arrasada via privatizações e novos desmontes.


Eu voto Lula e Haddad por ter esperança (do verbo esperançar) em investimentos na educação pública - básica e superior - em reforma agrária popular, em fortalecimento do SUS, no realinhamento de programas sociais aos conectores dos de desenvolvimento e dignidade humana, por políticas educacionais progressistas e pelo direito à memória e à história.


Eu votarei dia 30 de outubro pelo necessário combate ao racismo, ao machismo, à homofobia, ao desmatamento, à violência de estado, ao encarceramento em massa, à superexploração do trabalho, aos fundamentalismos. Voto contra os assassinos de Marielle, de Bruno e Dom, e de milhares de vítimas acometidas pela pandemia quando já havia vacina disponível, e que foram exiladas da vida por motivos políticos. Voto pelo meu Brasil, que sonha com a volta de tanta gente que partiu, num rabo de foguete que não retorna mais.


Voto a favor da retomada de um cenário em que a oposição seja respeitada para termos liberdade de lutar e de nos manter lutando, da forma como fomos forjados historicamente. Reconheço os limites da política e entendo que a politização da sociedade demanda outros movimentos, mas é preciso sair desse túnel escuro e voltar a ter esperança. Por isso fiz estas escolhas, a esperança equilibrista tem que continuar.



* Mariana Esteves de Oliveira - Professora adjunta da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, Campus de Três Lagoas, nos Curso de História e PPG de Educação. Coordenadora do Grupo de História da Residência Pedagógica e do Grupo de Estudos em Trabalho, Resistência, Experiência, Tensões e Ativismos Sociais – TRETAS. Participa do GforP e do INCT Proprietas. Associada à ANPUH desde 2010.


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