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  • Foto do escritorMarc A. Hertzman

NOMES ESQUECIDOS E 'DESCONHECIDOS'

Atualizado: 18 de ago. de 2022

Afinal, as línguas africanas têm algo a nos dizer sobre a independência brasileira?Relembrando algumas histórias esquecidas e identidades africanas e afrodiaspóricas na época da Independência do Brasil


Marc A. Hertzman


Em 1975, Sueli Carneiro tentava batizar sua filha “Luanda” para comemorar a independência recente de Angola, mas foi rechaçada pelo escrivão que “alegava que o nome era ‘desconhecido, esquisito’” (Portal Geledés, 2016). A história nos leva a pensar em outras formas de comemoração e esquecimento em torno de nomes, língua e independências nacionais. Se a experiência da Carneiro revela uma tendência de esquecer ou apagar histórias e identidades africanas no Brasil, que histórias paralelas ou parecidas existem na criação do Brasil? Que nomes e histórias foram apagados por escrivães e outros oficiais no século XIX? Para saber mais destas histórias, podemos tirar inspiração de trabalhos recentes sobre a Revolução Haitiana, que utiliza metodologias de linguística comparada utilizadas por africanistas e nos leva-nos a perguntar: afinal, as línguas africanas têm algo a nos dizer sobre a Independência brasileira? A resposta curta é ‘claro que sim’. Mas ainda temos muitas pesquisas a fazer.


Já é bem documentado que, depois da Revolução Haitiana, Toussaint, Dessalines e outros nomes dos “heróis” da revolução foram adotados por quase toda a parte das américas. Mas mesmo que saibamos sobre isto e outras repercussões da revolução no Brasil, em termos gerais, historiadores tendem a pensar da independência haitiana e brasileira como polos opostos: por um lado a revolução violenta no Haiti e por outro o “Eu fico.” Se o contraste reflete uma certa realidade, as muitas revoltas regionais no Brasil e as mobilizações negras armadas no século XIX nos chamam a atenção de outros processos e tentativas e nos instiga questionar as mitologias da Independência. Como Luiz Geraldo Silva já apontou neste blog, mesmo se muitas vezes esquecidos e marginalizados na historiografia, afrodescendentes jogaram papéis “complexo[s] e profundo[s]” nas revoltas do século XIX. Novas provocações na literatura sobre o Haiti também nos levam a pensar mais sobre o papel dos africanos nessas lutas. Se muitos afrodescendentes intentavam “encarar o passado escravista, compreendê-lo, superá-lo e, a partir daí, construir as bases de uma sociedade verdadeiramente igualitária,” como Silva ressalta, quais foram os objetivos e desejos dos africanos? Obviamente não há uma só resposta, mas podemos seguir vários caminhos na procura de horizontes novos.


Primeiro, há um caminho, já trilhado, mas ainda com amplo espaço por mais trabalho, que busca relações entre africanos e afrodescendentes em várias partes da diáspora. Nosso conhecimento das independências de Haiti e Brasil, por exemplo, mudou graças a obras como o ensaio que João J. Reis e Flávio Gomes publicaram em 2009 sobre o impacto da Revolução Haitiana no Brasil, que enfatiza a importância, não somente de comparar os dois casos, mas também de entender as conexões entre eles. Aqui podemos propor novas perguntas: Se a Revolução Haitiana tinha repercussões importantes no Brasil, será que notícias de insurreições e revoluções no Brasil – ou a formação de Palmares (século XVII), por exemplo – chegaram em praias haitianas antes da revolução de lá? Tenho perguntado isso a vários colegas que estudam o Caribe e ninguém sabe como responder. É um exemplo, entre outros, de perguntas que merecem mais atenção.


O segundo caminho, também já trilhado, é o da demografia. Já temos muitos estudos sobre a presença africana no Brasil durante o século XIX e já é bem conhecido que o tráfico de pessoas escravizadas trazia milhares de africanos ao Brasil: entre 1726 e 1850, por exemplo, chegaram em Brasil mais do que cinco vezes do que chegaram em Haiti. O material bastante rico e denso sobre o volume e demografia das pessoas escravizadas e levadas ao Brasil representa grande base a partir da qual podemos lançar novas perguntas e, aqui, a literatura recente sobre Haiti é especialmente instigante.


Em ensaio escrito em 2017, James Sweet lançou uma chamada de armas, ressaltando, “Já sabemos bastante bem as raízes europeias [da Revolução Haitiana]. Se desejamos entender os campos de conhecimento e modas de [africanos] em São Domingos durante a revolução [1791-1804], precisamos encontrar maneiras de acessar suas ideias”. Para Sweet, a chave é mais atenção a algo aparentemente básico, mas que leva muitas complicações e desafios a historiadores: a língua. Se estudantes da diáspora africana já têm a prática de utilizar dicionários, etimologias e filologias, há outro universo de conhecimento utilizado por historiadores africanistas que não tem chegado com bastante força ou frequência a nossos estudos da diáspora.


Num artigo publicado em 2021, Kathryn de Luna mostra um caminho especialmente promissor. Ela aponta que, apesar de existir longa história de estudos sobre línguas e palavras africanas na diáspora, existem poucos que vão além de “tratar a língua como fonte de identificar as origens de práticas e ontologias”. Para ir além de velhas perguntas sobre origens e chegar a novas questões de ação e invenção, ela utiliza linguística comparada histórica, que facilita a examinação de “palavras individuais para evidência do processo complexo e sempre contestado de construir entendimentos compartidos dentro de e cruzando fronteiras linguísticas.” Ela aproveita metodologias de linguistas africanistas para reconsiderar o significado do nome do curandeiro-médico François Makandal, “o mais famoso envenenador de Saint-Domingue”, cuja vida e morte foram imortalizadas por autores como Alejo Carpentier, entre outros.


Para historiadores, Makandal ou é revolucionário lutando pela liberdade coletiva ou é curandeiro que cuidava de indivíduos escravizados. De Luna separa o nome em três partes: a raiz (-kand-), o prefixo (ma-) e o afixo (-al-). Em cada um há várias possibilidades de significado e oportunidades para criar, adaptar e mudar. Assim, De Luna mostra por que e como Makandal chegou a ser temido e valorizado por gente escravizada e historiadores através dos séculos. O significado do nome podia literalmente conter ambas ideias—Makandal como perigo e como herói—a mesma vez.


Ela traz uma metodologia parecida a outros mistérios históricos sobre Makandal. Por muitos anos, historiadores pensavam que Makandal era muçulmano, devido a histórias de que ele invocava “Alá”, e passaram gerações debatendo de qual parte da África ele era. Através de um estudo nítido de morfologia (o estudo da estrutura e som de palavras) e a mudança em sons e estrutura de várias palavras e sons, De Luna muda o debate, levando-o além de questões de identidade e origem. É mais provável, ela mostra, que Makandal não dizia “Alá” e, sim, “À la…” para direcionar suas curas aos alvos desejados. O objetivo dela não é simplesmente corrigir uma tradução com outra, mas utilizar metodologia de linguística histórica comparada para redirecionar velhas perguntas sobre identidade e origem para novas explorações centradas nas ações, modificações e invenções de africanos nas américas.


Empolgados pelos estudos sobre Haiti, podemos também fazer novas perguntar: Além de liberdade e igualdade, quais foram os objetivos, desejos e categorias de pensar e estar dos africanos no Brasil na era da Independência? Já sabemos muito sobre a revolta dos hauçás, em Salvador, em 1835, por exemplo, mas o que mais podemos dizer sobre a presença e influência dos africanos em outras revoltas e processos da era da independência? Não são poucos os estudos que se debruçam sobre identidades e origens africanas no começo do século XIX, mas são raros os que mergulham nas histórias e componentes individuais de palavras da forma que De Luna faz para Makandal. Em nomes, palavras e sons que, até hoje são descartados como “desconhecidos, esquisitos”, existem outras histórias sobre África, sua diáspora e a Independência brasileira ainda a serem escritas.



Marc A. HertzmanUniversity of Illinois at Urbana-Champaign. Autor do livro De onde vem o samba (7Letras, 2022). Email: mahertzman@gmail.com




Saiba mais!

CARPENTIER, Alejo. O reino deste mundo. Traduzido por Marcelo Tapia. São Paulo: Martins Fontes, 2010.


DE LUNA, Kathryn M. Sounding the African Atlantic. William & Mary Quarterly. Williansburg, v. 78, n. 4, p. 581-616, 2021. Disponível em: https://bit.ly/3MT6f3Y. Acesso em: 14 jun. 2022.


SWEET, James. Research Note: New Perspectives on Kongo in Revolutionary Haiti. The Americas. Cambridge, v. 74, n. 1, p. 83-97, 2017. DOI: https://doi.org/10.1017/tam.2016.82.

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